Trabalhar mais ≠ trabalhar melhor: O erro que quase sempre comento
A Armadilha da Produtividade Extrema
Desde que mudei de empresa e me aproximei do setor de tecnologia — onde sempre quis trabalhar —, minhas horas de reunião foram substituídas por horas na frente do computador, mergulhado em tarefas. Não que antes eu não trabalhasse, mas atuar com tecnologia é muito mais solitário do que parece.
O tempo antes dedicado a reuniões agora se transformou em análises, gráficos e código. Você passa a se aprofundar cada vez mais em pequenos problemas e, quando seu trabalho envolve diversas áreas, surgem múltiplas demandas para lidar. Com essa mudança, veio também uma sensação: a de que eu estava sendo extremamente produtivo!
Mas já sabe o que vem depois, né? Como o ser humano nunca está satisfeito, mais e mais tarefas foram sendo retiradas do backlog, mais e mais demandas foram sendo resolvidas, e com isso, a sensação de estar entregando coisas importantes só crescia.
O Perigo de Ser Apenas um Executor
E junto com essa euforia (talvez não tão junto assim, infelizmente) veio outra percepção: por mais que eu temesse isso, tinha me tornado apenas um executor de tarefas. E o pior? Isso não foi nem um pouco planejado e, muito menos, reflete o real impacto do meu trabalho.
É aí que mora o problema. É aí que você precisa parar e refletir sobre o que está fazendo. Cair na rotina é muito mais fácil do que parece.
Como em qualquer empresa, você é avaliado pelo impacto que gera no negócio. E pode apostar: o simples "fazer tarefas" está longe de ser o impacto mais significativo que você poderia causar.
Mas calma, a história não acaba aqui!
A Química do Vício em Produtividade
O tempo foi passando e, cada vez mais envolvido na sensação de produtividade extrema, deixei de prestar atenção em reuniões, de fazer comentários relevantes ou simplesmente de colaborar de forma estratégica. Tudo para poder "trabalhar" durante esses momentos. Afinal, pra que perder tempo com uma reunião chata se eu poderia estar entregando ainda mais?
E quando chega nesse ponto, você precisa tomar muito cuidado: nosso cérebro é impulsionado pelo feedback positivo, um mecanismo que nos recompensa com dopamina sempre que completamos uma tarefa. Quanto mais entregamos, mais queremos entregar — e acabamos confundindo quantidade com impacto real.
Foi então que, após muita terapia, autorreflexão, conversas com colegas e, principalmente, um forte sentimento de esgotamento, comecei a perceber que havia algo muito errado. Pode parecer um clique simples, como se a ficha tivesse caído da noite para o dia, mas não foi nada disso.
A Importância da Autocrítica
Ser crítico em relação ao próprio trabalho é algo cada vez mais importante!
E, indo na contramão do que muitos "gurus da produtividade" vendem por aí — a ideia de que é necessário ser produtivo 100% do tempo, trabalhar enquanto os outros dormem e nunca parar —, percebi na prática que ser produtivo, muitas vezes, significa ter a mente mais clara, e não mais ocupada.
Gerencie Energia, Não Tempo
E não sou só eu que digo isso. Escrevendo este texto, lembrei de um artigo da Harvard Business Review que li há um tempo: você precisa gerenciar sua energia, não o seu tempo.
Fazer pausas, escolher quando trabalhar com mais intensidade, quando relaxar e evitar ser multitarefa são atitudes essenciais. Não responder mensagens instantaneamente, não trabalhar com duas telas ao mesmo tempo (essa é minha maior inimiga!) e silenciar notificações são medidas que podem aumentar a produtividade real.
No mundo atual, a sensação de não estar sendo produtivo — ou simplesmente o medo de estar perdendo algo (FOMO) — dificulta ainda mais esse processo.
Mudando a Perspectiva
Às vezes, estamos no caminho errado, e corrigir a rota é necessário. Em alguns momentos, dar um passo para trás é essencial para dar dois para frente.
Como diz o próprio artigo da HBR:
"A ciência da resistência avançou ao ponto de indivíduos, equipes e organizações inteiras poderem, com algumas intervenções simples, aumentar significativamente sua capacidade de realizar tarefas."
Lições Práticas
Aprendi algumas lições importantes nesse processo:
- Impacto > Volume: Entregar 10 tarefas pequenas não é melhor que resolver 1 problema estratégico
- Presença importa: Estar presente em reuniões e colaborar estrategicamente é trabalho, e dos mais importantes
- Energia é finita: Trabalhar sem parar não te torna mais produtivo, te torna exausto
- O cérebro precisa descansar: Pausas não são luxo, são necessidade
- Qualidade da atenção: Fazer uma coisa de cada vez com atenção total é melhor que fazer várias pela metade
Conclusão
Trabalhar mais nem sempre significa trabalhar melhor. Na verdade, muitas vezes significa trabalhar pior — mais cansado, menos criativo, menos estratégico.
A verdadeira produtividade não está em quantas horas você trabalha ou quantas tarefas você completa. Está na clareza mental para identificar o que realmente importa, na energia para executar com excelência, e na coragem de dizer não para o que não agrega valor real.
E talvez o mais importante: está em reconhecer quando você precisa parar, refletir e mudar de direção. Porque às vezes, o ato mais produtivo que você pode fazer é simplesmente não fazer nada.