Sei exatamente o que fazer, mas falho todo dia… um texto sobre gerenciar energia
Tem uma coisa que venho percebendo sobre mim mesmo, e que talvez você também perceba sobre você: não é a falta de tempo que me quebra, é a falta de energia. E não é energia física, não. É outra coisa. É mais sutil, mais profunda.
É a energia que você gasta tentando prestar atenção em tudo ao mesmo tempo. É a energia que drena quando você fica alternando entre quinze abas abertas no navegador, doze conversas no Slack, vinte notificações no celular, e aquela voz na sua cabeça perguntando se você está sendo produtivo o suficiente.
Tenho falado sobre isso bastante com meu psicólogo ultimamente. E por mais que eu saiba o jeito "certo” de agir, é BEM mais dificil do que parece, porque a gente cresce achando que o problema é gerenciar tempo. Tempo, cronograma, agenda, planilha, método, ferramenta. Sempre uma ferramenta nova que vai resolver tudo.
Mas não resolve. Nunca resolve.
Porque o tempo passa igual para todo mundo. 24 horas, 1.440 minutos, 86.400 segundos. O que muda é como você se sente durante esses segundos. Se você está presente neles ou se está sendo puxado para mil direções diferentes.
Obviamente não tô aqui falando de privilégio, de pessoas que tem muito mais condição que outras… esse é um problema mais complexo e que tem sociólogos trabalhando nesse momento para entender.
A questão real não é "como fazer mais coisas", é "como estar inteiro nas coisas que você faz".
E isso, admito, é onde eu mais falho. Sou terrível nisso. Minha mente é um navegador com cinquenta abas abertas, e metade delas está tocando música sem eu saber qual é. É exaustivo viver assim. É como ter a energia vazando por mil pequenos furinhos que você nem percebe que estão lá.
Foi por isso que comecei a silenciar as coisas. Canais do Slack no mudo. Notificações do celular desligadas. Email checado duas vezes por dia, não duas vezes por minuto. Aplicativos deletados. Ruído cortado.
No começo, dá aquela ansiedade. "E se eu perder alguma coisa importante?" Mas aí você percebe que 90% das coisas que parecem urgentes não são. São só ruído disfarçado de produtividade. São só outras pessoas transferindo a ansiedade delas para você.
A vida moderna é uma competição para ver quem consegue distrair mais a sua atenção. Todo aplicativo, toda notificação, todo algoritmo foi desenhado para sequestrar um pedacinho da sua energia mental. E você deixa, porque acha que está "se mantendo informado" ou "sendo produtivo".
Mas produtividade não é sobre fazer mais coisas. Produtividade é sobre fazer as coisas certas com a energia certa.
E energia não é infinita. Você acorda com um tanque cheio e vai gastando ao longo do dia. A questão é: você está gastando em coisas que importam ou está deixando vazar em mil pequenas decisões desnecessárias?
Cada notificação que você confere é uma pequena decisão. Cada email que você lê fora de hora é uma pequena decisão. Cada vez que você pega o celular "só para ver" é uma pequena decisão. E decisões gastam energia.
Steve Jobs usava a mesma roupa todos os dias não por preguiça, mas por sabedoria. Uma decisão a menos. Uma economia de energia. Mais espaço mental para as coisas que importavam.
Obama fazia a mesma coisa. Mark Zuckerberg também. Não é sobre ser estranho, é sobre entender que energia mental é um recurso finito e precioso.
Mas não é só sobre eliminar distrações. É sobre entender o que te dá energia e o que te rouba energia. Tem tarefas que, mesmo sendo "produtivas", te deixam exausto. E tem outras que, mesmo sendo "improdutivas", te renovam.
Para mim, escrever é uma dessas. Posso passar horas jogando e conversando, e terminar mais energizado do que quando comecei. Quinze minutos vendo uma aula me suga por horas.
A diferença não está na duração da atividade, está na qualidade da energia que ela demanda ou gera.
Tem tarefas que exigem energia criativa. Outras que exigem energia analítica. Outras que exigem energia social. Outras que exigem energia emocional. E você tem quantidades diferentes de cada uma delas em momentos diferentes do dia.
Tentar fazer trabalho criativo quando você só tem energia para tarefas mecânicas é receita para frustração. É como tentar dirigir um carro esportivo na primeira marcha. Vai andar, mas vai ser uma experiência horrível.
Por isso que horário importa. Por isso que ritmo importa. Por isso que conhecer seus próprios padrões importa.
Eu sou uma pessoa zero matinal. Minha energia criativa está no final da tarde. Depois disso, vai declinando gradualmente. Já de manhã, consigo fazer tarefas operacionais
E da mesma forma que falei no começo do texto, vou continuar falando: sei disso, estou escrevendo sobre aqui, mas mudar é difícil. É uma vida inteira de crenças para mudar.
Conhecer seu ritmo de energia é como conhecer o manual de instruções de você mesmo. É a diferença entre lutar contra sua natureza e trabalhar com ela.
Mas tem outro lado dessa história: saber quando parar.
Nossa cultura glorifica o "não parar nunca". Hustle culture. Grind. "Enquanto você está dormindo, eu estou trabalhando." Besteira. Puro ego disfarçado de produtividade.
No final das contas, energia é vida. É presença. É a capacidade de estar inteiro no que você está fazendo. E isso não tem preço.
É isso que nenhuma ferramenta de produtividade vai te dar. É isso que nenhum método vai resolver. É isso que só você pode cultivar, proteger, e investir onde realmente vale a pena.